PRIVILÉGIOS PAULISTANOS
Flávio Tiné


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13/02/2010 09:03


MEMORINHAS


Quando criança, na minha terra, contentava-me com a procissão e o coreto, onde a banda de música tocava no máximo valsas de Strauss. O maestro chamava-se Manoel Bombardino, que me ensinou o que é clave de Sol.
Nunca esqueci os circos que às vezes apareciam com enormes elefantes. Tampouco aquele cujo palhaço sabichão levou consigo minha vizinha de 15 anos, com a promessa de transformá-la numa grande artista. Deve tê-lo feito, pois nunca mais tivemos notícia dela. Os pais não tomaram qualquer iniciativa para localizá-la. "Deus quis assim", diziam quando consultados a respeito.
Já naquela época, o conformismo era a marca registrada das comunidades de interior. A fome era enganada pelo apelido de promessa, dieta, regime ou jejum obrigatório. E Deus seja louvado!
Não lembro exatamente o ano, aí pela década de 50, quando o maior barato era migrar para o Rio e São Paulo, muitos amigos mais velhos o fizeram. Um deles nunca mais voltou e dele nunca mais tivemos notícia alguma. Os pais, comerciantes que eram, até que fizeram algum esforço, mas jamais teriam coragem de viajar para tão longe à procura do filho, mesmo porque tinham outros quatro. Por mais que o amassem, não tinham forças para tamanho empreendimento.
O maior barato, já que não conhecia nenhuma dessas drogas que deixam a gente baratinado, era olhar as estrelas, deitado no chão. Sabe como é, cidade do interior do Nordeste, onde nunca aparece uma nuvem sequer, se presta muito para isso. A gente olha, olha, olha, não entende nada. Só quando chega o ginásio e vem aqueles explicações. Maior barato ainda era olhar as enchentes do rio que cortava a cidade. Era uma vez por ano, em junho, cada uma mais linda do que outra, águas barrentas, plantas sendo arrastadas sob a ponte, de onde todo moleque pulava para se divertir. Ah, as enchentes do rio Ipojuca!
Sinto o cheiro da terra, levantado pela chuva que acorda todo mundo. Não, não é o mesmo orvalho da manhã da infância, nada tem aquele cheiro ou gosto. Isso não quer dizer que seja desagradável, apenas não é o mesmo.
Os pássaros que gorjeiam ao amanhecer à minha porta não gorjeiam como lá. Gonçalves Dias previu isso.
O sol da manhã também não é o mesmo. Não há sol todo dia, como lá.
Mesmo assim, alguma coisa me diz que me basta. Não há nenhuma prova de que é melhor viver num apartamento à beira do Sena, em Paris, ou ao lado do Central Park, em Nova York. Todos os dias vejo o Tietê. E no verão, com suas enchentes. Em vez de baraúnas, lixo, muito lixo. Houve um ano em que a água chegou à minha porta, mas não entrou.



NÃO VI E LAMENTO

Não vi o show de apresentação do novo CD de Chiquinha Gonzaga, no SESC Vila Mariana, ontem. Lamento. Sei que o trabalho de arranjos e produção foi maravilhoso. E de quebra, havia a flauta transversal de Gabriela Machado, das Choronas.
Quem me deu o gostinho do show foi uma excelente reportagem no Caderno 2, de O Estado de S. Paulo, e os comentários do blog de Assis Angelo: http://assisangelo.blogspot.com/

NÃO VI E NÃO GOSTEI


Não vi e não gostei do desfile das escolas de samba no Anhembi.


RECOMENDO



Quem gosta de levar as crianças para contação de história não pode perder amanhã à tarde a performance de Kiara Terra na Praça Victor Civita.

Flávio Tiné | Comente ou mande e-mail para tine@estadao.com.br (1)



02/02/2010 09:05


GUERNICA PAULISTANA


Há mais de 30 dias São Paulo sofre com terríveis inundações, destruindo móveis, imóveis, eletrodomésticos e desabrigando famílias inteiras da periferia. Cenas lamentáveis se repetem, para deleite de apresentadores de televisão preocupados com audiência. Enfrentando grandes dificuldades, migrantes de várias partes do país se instalam à beira de córregos ou na encosta de morros, onde o acesso é difícil até para a fiscalização.
Impermeabilizada por sucessivos asfaltamentos e canalização de riachos em direção ao rio Tietê, São Paulo não oferece a menor condição para escoamento das águas. E haja inundações!
A maneira mais fácil de criticar a situação é responsabilizar as autoridades, sem discutir se são elas que autorizam as construções ou é a população que constrói em qualquer lugar.
Sucessivos debates discutem a questão, sem chegar a uma conclusão sobre o que fazer.
Daqui a poucos dias as chuvam cessarão. E o problema só voltará à discussão nas próximas inundações, em dezembro próximo.
Meus parcos conhecimentos de Direito não permitem acusar ninguém - prefeito, governador, presidente da República. Tampouco os invasores de terrenos à beira dos córregos ou na encosta dos morros.
Não temos escravidão. Não temos imperialismo ianque. Não temos Doi-Codi. Não temos espionagem nas favelas - só nas grandes empresas estatais. Temos a ira dos céus todo fim de tarde. A chuva cai sofre os prédios, mas não os atinge. Todos tem para-raios. As palafitas desabam, menos na Amazônia, onde elas são construídas com a experiência dos moradores, acima do nível das águas das enchentes.
A vida das pessoas atingidas entra em choque, enquanto os eletrodomésticos entram em curto. Não há mais síndrome, mas o próprio pânico se instala nas pessoas, que vão para abrigos ou casas de amigos e vizinhos.
Somos obrigados a concordar com os dramáticos apresentadores de televisão, que berram os horrores das inundações, tão indescritíveis como os horrores do Haiti ou da Somália.
São Paulo precisa de um quadro que mostrasse as diversas faces de sua tragédia, uma espécie de "Guernica" paulistana. Famoso pelo quadro "Meninos do Recife", que mostra figuras esquálidas, Abelardo da Hora poderia fazer um quadro ou uma escultura focalizando as vítimas das enchentes. O primeiro rendeu-lhe sucessivas prisões. O segundo poderia consagrá-lo ainda mais (vide exposições de esculturas no vão do Masp, avenida Paulista).
São Paulo precisa de dez Datenas, não para clamar inutilmente contra "autoridades competentes", mas para ajudar a formar esse suposto quadro.

VOLTA ÀS AULAS

Enquanto as cidades do ABCD viviam seu drama, a volta às aulas na cidade de São Paulo foi tranquila, ontem, 1 de fevereiro. A meninada compareceu em massa, sem maiores dramas. Todos contavam, alegres, aonde passaram suas férias e nem citavam os dissabores das enchentes. Os paulistanos sobrevivem, lado a lado com as tragédias. Cada dia, nova esperança.
A caminho da escola, uma de minhas netas pergunta: de que mesmo o rádio tá falando, vô? Inundações?
Daí a pergunta: onde estão as escolas que não preparam as crianças para as próximas catástrofes? Claro, estão ensinando boa conduta, jogar lixo no lixo, se beber não dirija, ame o próximo como a ti mesmo, etc. Parece pouco.
A propósito, lembro-me da campanha do Instituto Zero a Seis, que acredita na formação da criança de zero a seis anos. Formar o caráter, o espírito de luta, a busca de soluções. É o que nos resta!


Flávio Tiné | Comente ou mande e-mail para tine@estadao.com.br (0)



26/01/2010 11:37


40 ANOS DA TV GAZETA


À meia-noite de ontem, quando se encerravam as festas dos 456 anos de São Paulo, explodiam fogos de artifício nas torres da TV Gazeta para comemorar de forma pirotécnica os 40 anos da emissora. Ronnie Von e seus convidados, entre os quais Max Castro e Simoninha, saudavam efusivamente o evento, dos estúdios do programa "Todo Seu".
Momentos antes, a Imprensa Oficial lançara o livro "Avenida Paulista, 900 - A História da TV Gazeta", de Elmo Frankfort, com a presença dos principais artistas, apresentadores e jornalistas da emissora. O livro faz parte da Coleção Aplauso, saudada na apresentação do livro por José Serra, governador do Estado de São Paulo, para quem ela cumpre função social, "pois garante a preservação de parte de uma memória artística genuinamente brasileira e constitui mais que justa homenagem àqueles que merecem ser aplaudidos de pé".
Para Hubert Alquéres, presidente da Imesp, a coleção permite reconstituir a trajetória de artistas de teatro, cinema e televisão de São Paulo. Além de reunir o mais rico acervo de informações sobre a TV Gazeta, o livro relembra a história dos jornais A Gazeta (no qual tive a honra de trabalhar como colunista de TV sob o pseudônimo de Zé Flávio), A Gazeta Esportiva e Rádio Gazeta, que durante alguns anos foi a opção "cult" da cidade.
Foi na TV Gazeta que se iniciaram várias personalidades que hoje desfrutam de grande prestígio nos meios de comunicação, como Galvão Bueno, Sérgio Groisman, Joelmir Beting, Amaury Jr., Faustão, Marcelo Tas, Paulo Markun e Sandra Annemberg, e mais "uma fila imensa de talentos", conforme lembra Elmo Frankfort.
Além de rico em detalhes, o livro é rico em ilustrações, exibindo fotos dos principais apresentadores, de alguns programas e de todos os seus logotipos. Constitui, pois, importante material de consulta, especialmente para quem deseja estudar a história das comunicações no Brasil.
Um dos aspectos que chama a atenção no caso da TV Gazeta é a despreocupação com os índices de audiência. Para a emissora, o mais importante são os valores éticos, ensinados a partir da escola de jornalismo mantida pela Fundação Cásper Líbero no mesmo prédio da avenida Paulista. A escola, fundada antes da ECA-Escola de Comunicações e Artes da USP, foi o primeiro celeiro de grandes profissionais.
O Jornal da Gazeta, apresentado entre 19 e 20 horas por Maria Lydia, é uma atração valorizada pelas opiniões abalizadas de Mário Almeida, José Paulo Kupfer e Celso Sabadin, entre outros. Sua principal característica é a serenidade e firmeza com que aborda os mais variados assuntos, sem atropelar o tempo com o visível desespero dos concorrentes. Desde os tempos da Rádio Gazeta Maria Lydia conquista seus ouvintes ou telespectadores com um raciocínio límpido, como um escritor que constrói seus enredos de forma a prender o leitor até as últimas linhas.
Daí a questão: por que preocupar-se com Ibope? Em qualquer parte do Brasil, onde estiver o Jornal da Gazeta, haverá um telespectador curioso e atento. Quase o mesmo vale para o caso de "Todo Seu". Ronnie Von não lembra nem de longe o "Pequeno Príncipe" de "Meu Bem", exceto nos elogios a grupos ou cantores de gosto duvidoso. É um apresentador tranquilo, que vende seu peixe com a sabedoria de um mercador de cultura.
Assim, a programação da TV Gazeta é uma boa opção nos dias em que a concorrência extravasa no mau gosto para conquistar pontos de audiência.
Se não é a melhor, certamente não estará entre as que merecem invariavelmente o uso do controle remoto, exceto quando a tela é invadida por aqueles bandos de fanáticos que alugam o horário em nome da fé.
O forte temporal que desabou sobre a cidade durante a tarde e a noite de ontem certamente dificultou a ida de personalidades ao lançamento do livro, obrigando o repórter a malabarismos verbais e a entrevistar Agnaldo Timóteo como uma das personalidades presentes. Nada contra o grande cantor mineiro e vereador paulistano, mas até o ex-governador Geraldo Alckmin, famoso pelo fraseado insosso como chuchu, falaria algo mais consistente.

Flávio Tiné | Comente ou mande e-mail para tine@estadao.com.br (2)

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