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12/12/2011
17:07 AS CANÇÕES DE EDUARDO COUTINHO
Costumo medir a qualidade de um filme pela atenção que ele me desperta. Para mim, filme bom é aquele que faz a gente esquecer tudo - a pipoca, o braço de quem senta ao lado, a hora, o próximo compromisso, tudo, absolutamente tudo. A gente só percebe alguma coisa quando o filme chega ao fim e as pessoas começam a se levantar.
Foi o que aconteceu comigo nesta tarde de domingo. Fui ao cinema e esqueci de tudo durante mais de uma hora, ao assistir As Canções, de Eduardo Coutinho. Curiosamente, não há nada de excepcional na produção de Moreira Salles. Ao contrário. O cenário é único: uma poltrona, um palco e uma cortina por onde entram e saem os personagens, gente simples do Rio de Janeiro e de São Paulo, num desfile de depoimentos sobre a música que mais lhe chamou a atenção, deixou saudades ou marcou a vida de cada um.
Não sem razão, as músicas lembradas são as mais conhecidas do grande público, pela simples razão de que simulam ou representam situações comuns vivenciadas pela população em geral. Nem li as críticas e os comentários publicados para não me deixar influenciar por nada nem por ninguém. Daí o suspense que me envolveu durante toda exibição.
O mais importante é a incrível capacidade de Eduardo Coutinho de captar as coisas simples da vida e descobrir a genialidade nos fatos mais comuns. Como no filme, vieram-me a lembrança as canções que minha mãe cantava enquanto fazia vestidos e calças para os filhos, pedalando sua indefectível máquina de costura Singer. Um dos depoentes chorou ao cantar Perfídia, que lembrava a mãe dele - costureira, naturalmente - cortando moldes.
O filme vale pela estreita correlação entre a vida real e os sonhos. Para os mais jovens, que hoje desfrutam da comunicação instantânea e não sofrem de amor como antigamente, o filme será uma bobagem. Os mais velhos conhecem Francisco Otaviano (1825-1889), que dizia no poema “Ilusões da Vida: “... quem passou pela vida e não sofreu,/ foi espectro de homem, não foi homem/só passou pela vida, não viveu” .
Mas ninguém espere um desfile de lágrimas. Ao contrário, os depoimentos provocam boas risadas pela maneira descontraída dos depoimentos. O chamado espírito carioca está presente, permitindo uma convivência bem humorada da narrativa dos sofrimentos de cada um. Enfim, um filme imperdível, principalmente pelos idosos e os de meia-idade.
Eduardo Coutinho reitera sua enorme habilidade na captação das intimidades do ser humano, mostrando mais uma vez a razão dos merecidos prêmios já conquistados.
Flávio Tiné | comentários(0
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02/08/2011
10:24
<CARTAS À MINHA MÃE>
Desculpe a ausência involuntária. Estou no Recife desde o dia 15 de julho. Vim fazer companhia a minha irmã, que ficou sozinha desde que você morreu, há uns dois anos. Dei uma voltas pela rua do Hospício, Conde da Boa Vista, 7 de Setembro e Richuelo. Um horror, como sempre. Mais parece um camelódromo marroquino, com vendedores ambulantes disputando espaço com pedestres e automóveis.
Durante duas horas acompanhei os diálogos – na verdade disputas por espaço e por fregueses, mas ao contrário do que acontece normalmente nesses espaços tão peculiares ninguém vai às vias de fato. Pelo contrário, há até alguma educação e certa atenção ao idoso. Eu mesmo claudicando cautelosamente para evitar buracos, saliências e demais obstáculos, fui muito bem tratado pelos ambulantes e transeuntes. Há um misto de respeito e piedade. Observei que a maior preocupação deles, de todos eles, é olhar minhas pernas. Deu-me a impressão de que esperavam alguma coisa diferente ou incomum, já que eu andava quase arrastando os pés, como medo de uma queda.
Milagrosamente não caí desta vez. Quem sabe por causa das aulas e treinamentos da Universidade Aberta do Envelhecimento Saudável, da USP, onde aprendo algumas maneiras práticas de minimizar os efeitos da senilidade.
Tenho o privilégio de conviver com Wilson Jacob Filho, criador da tal universidade no Hospital das Clínicas de São Paulo, e nos encontros dos idosos debate-se muito as causas e consequências das quedas na terceira idade. Por meio de exemplos, conhecemos o que acontece na prática com os idosos que insistem em caminhar. É obrigado a conviver com todo tipo de desnível, sem ter mais aquela agilidade das pessoas mais jovens.
Voltando às ruas que visitei, senti falta da Livro 7, que congregava escritores de forma simpática, copiada depois por outras livrarias, como a Cultura. Afora as noites de autógrafos, que eram prestigiadas por intelectuais de várias correntes, a livraria foi por algum tempo o ponto de encontro natural, frequentado por Gilvan Lemos, Antônio Falcão, Paulo Cavalcanti, Homero Fonseca, entre outros. A livraria tinha uma entrada pela rua 7 de Setembro e outra pela Richuelo, onde permanece com o nome de Nossa Livraria.
Esse trecho da cidade do Recife pode ser considerado um shopping a céu aberto. Tem de tudo. Uma infinidade de farmácias, demonstrando nossa tendência à automedicação.
Quem não quiser entrar num bar, encontra de tudo no meio da rua, em precárias condições de higiene, é verdade, mas não se ouve falar de ninguém que passou mal por causa disso. As guloseimas pernambucanas encontram ambiente favorável em meio aos habibes e sushis.
Viva a nossa culinária!
É no pedaço que se encontra, finalmente, o Teatro do Parque, tradicional recanto onde ensaiava a Banda Municipal, sob a regência de Duda. Ali está farta documentação para a história do Recife.
No começo da avenida Conde da Boa Vista não há nenhum desfile de moda. Ao contrário. Todos se vestem à vontade - por causa do clima, pelas dificuldades financeiras, por conforto ou propositadamente, para evitar roubos ou furtos.
Flávio Tiné | comentários(1
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